20 de junho de 2008
O grande sucesso de bilheteria do filme nos Estados Unidos vem provar que o público feminino voltou a ser um elemento importante nas bilheterias. As mulheres voltaram a mandar, de tal forma que o filme rendeu bem até mesmo numa segunda-feira (e houve casos de mulheres que chegaram a arrendar uma sessão inteira, para convidar as amigas a verem juntas o filme), o que, para mim, é uma coisa positiva. Com um problema: quem gostava da série, conhece os personagens e as situações, e irá gostar do filme. Os outros terão dificuldades, já que por si só, dramaticamente, o filme não resiste. Tem falhas sérias; entre elas, o excesso de metragem (148 min.), ainda mais para o gênero comédia romântica; pouco diz de novo, embora repita algumas ousadias - mais nudez do que é costumeiro nas telas e no gênero, mas dentro do padrão da série da HBO.
Por vezes, exagera no desfile de modas, no elogio da frivolidade e na celebração da amizade feminina, coisa que as próprias mulheres são as primeiras a colocar em dúvida (mulheres, mesmo amigas, não deixam de serem competitivas, fator que a série ignora).
Sou grande admirador da série, originalmente da Paramount, que não acreditou no longa-metragem, que acabou indo parar na New Line (hoje rebaixada nos EUA, voltando para sua nave-mãe, a Warner Bros.), com um orçamento relativamente pequeno (isso explica tantas seqüências de merchandinsing: foi dessa forma que eles conseguiram dar ao filme um tom luxuoso, e encenar coisas como a Fashion Week de Nova York, sempre com patrocinadores que não pagaram para entrar no filme, mas para produzir eventos ou determinadas cenas).
Como todos sabem o filme era para ter sido feito logo depois do final da série, o que não sucedeu porque uma delas, Kim Cattrall, tinha problemas familiares, e não aceitou ganhar menos dos que as parceiras (não Sarah Jessica Parker, porque esta é co-produtora).
O roteiro era diferente deste que acabou sendo filmado por Michael Patrick King, que era produtor e roteirista, mas nunca antes tinha dirigido para cinema. Só que a série Sex and the City (1998/2004) foi passar em reprise em outros canais, e continuou a fazer sucesso, criando um novo público de fãs, o que é explicável, já que realmente era inovadora e ousada. O fato é que, nos últimos anos, o cinema perdeu uma batalha: deixou de ser ponta-de-lança de modas e novidades, cedendo espaço para as séries de TV, em particular aquelas produzidas por e para as redes de TV por assinatura, como a HBO, que não estão sujeitas às normas de censura das TVs abertas.
Nunca se tinha visto antes - em TV ou mesmo no cinema - uma análise tão acurada, sensível, inteligente, esperta, moderna - e sacana! - do comportamento da mulher atual numa cidade grande. Estranhamente, a série foi escrita por dois homens, Patrick (que também fez Will & Grace) e Darren Star, mas baseada num livro de Candace Bushnell, que inspirou a figura da protagonista Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), que escreve uma coluna jornalística com o titulo do show, analisando os relacionamentos entre homens e mulheres, na atual ilha de Manhattan. Mas a série, na verdade, é sobre ela e três amigas: Miranda, uma advogada liberal e bem sucedida - interpretada por Cynthia Nixon - tanto que comprou um ótimo apartamento na Segunda Temporada - e Charlotte, uma puritana mas ousada diretora de galeria de artes no Soho, vivida por Kristin Davis. E Samantha Jones, a balzaqueana e ainda bela Kim Cattrall, que interpreta a dona de uma firma de relações públicas, e é também a mais velha e mais, digamos, promíscua delas. Transa com todo mundo e, com freqüência, se dá mal. Kim faz o personagem de forma tão humana, tão verdadeira, que é impossível não se gostar dela.
A série começou inovando na linguagem (de vez em quando tinha depoimentos para a câmera, trechos da coluna dela, mas basicamente são as quatro garotas e seus amores). Carrie ficou a maior parte do tempo namorando um sujeito muito rico e bonitão, chamado Mr. Big (Chris Noth), que a mantinha como amante mas não queria nada mais sério. E a pobrezinha sofria bastante.
Dois episódios ilustram a qualidade da série. Num deles, elas tentam ir ao restaurante da moda em Nova York, mas a moça que cuida das mesas nunca tem um bom lugar para elas. Despreza-as constantemente. Até o dia em que, por obra do acaso, uma delas está no banheiro justamente quando essa mulher, que é a mais poderosa de Nova York, lhe pede ajuda: lhe pede um ‘modess’ emprestado. E desde então, sempre lhe dará a melhor mesa no restaurante. Essa é uma idéia brilhante, que só mesmo uma mulher seria capaz de pensar, uma cumplicidade da qual homem, francamente, não tem a menor idéia. Outro momento incrível foi no último episódio do primeiro ano, quando Samantha descobre finalmente o homem da sua vida, e está apaixonadíssima. Tudo vai às maravilhas, demoram até para transar mas, justamente no dia, a tragédia: ele é pouco dotado. E o episódio - e a temporada - se encerrava com os dois transando, a câmera se aproximando do rosto dela, e Kim chorando, com as lágrimas rolando, com a certeza de que a felicidade nunca é perfeita.
Desde sua origem, Sex and the City teve um propósito: registrar Nova York como a capital do mundo. As quatro freqüentam os melhores restaurantes, os pontos mais interessantes da cidade e, principalmente, se vestem com tudo que há de mais moderno e chique.
A paixão de Carrie pelos acessórios (em particular sapatos) foi o que acabou provocando a atual febre feminina de se acessorizar. Sarah virou um ícone da moda, e foram até escritos guias de turismo para se fazer o circuito de lugares usados na série. Mas de todos os modismos lançados por eles, nenhum ficou mais marcante do que o do coquetel Cosmopolitan que virou uma espécie de marca registrada das amigas, e também de sofisticação feminina, para beber, ficar alegrinha, mas não dar vexame. E que no longa tem um momento muito especial, para seu retorno e elogio.
O filme se inicia com um rápido retrospecto do que sucedeu na série e, narrativamente, segue o mesmo esquema: é narrado por Carrie que, desta vez, não escreve uma coluna nem discute tópicos, mas vai contando o que sucede com ela e as amigas. Samantha mudou-se para a Califórnia, onde está cuidando da carreira do namorado, bem mais novo, agradecida por ele ter cuidado dela quando teve câncer (ainda na série). Ele agora virou astro de televisão e ela, morando em Malibu, luta para ser fiel. Miranda continua problemática e, ao cuidar da família e continuar no trabalho, fica chocada quando descobre que o marido a traiu, a ponto de sair de casa, do Brooklyn, e retornar para Manhattan, levando a sério a separação, apesar dele ainda amá-la. Charlotte continua casada, feliz e adotou uma adorável menina oriental. É a menos problemática delas e, por isso mesmo, a atriz Kristin Davis a que tem menor presença no filme, até porque ele está, em grande parte, focado em Carrie, que está se preparando para se casar, finalmente com o Sr. Big, numa cerimônia suntuosa.
Claro que não vou contar o que sucede, mas não é preciso muita imaginação, porque roteiro usa um preceito básico: quando não se sabe o que fazer, e não há muito que contar, o jeito é inventar crises e brigas entre os casais, prolongando assim a história. Resolvem também uma falha da série original, que era não trazer nenhuma personagem importante que fosse negra. Agora, Carrie é ajudada por uma assistente (Jennifer Hudson de Dreamgirls, que não justifica o Oscar que levou para casa), que se torna sua grande amiga (e lhe proporciona uma citação de Agora Seremos Felizes com Judy Garland).
Me espantei com muitas coisas nesta versão em tela grande. Antes de tudo, o botox - ou plástica - sofrida por Kim Cattral (e, suspeito que, também por Chris Noth, o Big, que está com uma cara muito esquisita). Mais espantoso ainda é o fato de Sarah ser estrela. Ela é feia, magra, com rosto irregular e com cara de bruxa. Virou, no entanto, um ícone da moda. Sinal de que alguma qualidade deve ter.
Rodado no que há de mais fashion em Nova York, o filme até que me interessou, porque conheço bem os personagens e consigo me interessar por eles. Mas dá para entender os que reclamam de sua banalidade, e como é inferior ao original.
Apesar das restrições, ainda continuo gostando das amigas. Mas conheço um monte de homem que se recusa a ver filme desse tipo...
Por
Rubens Ewald Filho