1 de agosto de 2008
Não parecia uma idéia promissora, fazer mais uma adaptação de Romeu e Julieta, de William Shakespeare (principalmente porque teve outra, este ano, que foi um desastre: Maré, Nossa História de Amor, de Lucia Murat). E, mesmo porque, tudo cheirava a óbvio: a menina rica de Ipanema, que se envolve com o rapaz pobre, da favela do Morro do Canta Galo. Naturalmente um bom caráter, bom coração, de boa aparência. E claro que a família dela (apenas um pai em crise econômica) seria contra. Ou seja, o pior clichê de todos. Miraculosamente, houve um diferencial: o talento do diretor Breno Silveira, em seu primeiro filme desde o megasucesso de Os Dois Filhos de Francisco.
É graças à sua habilidade como contador de histórias, que a gente embarca nessa história, torcendo e se envolvendo, até mesmo se emocionando. Principalmente com a conclusão, onde deixa claro que o filme, no fundo, é também a história do rapaz Thiago Martins (revelado em Cidade de Deus, esteve na novela Belíssima, de Silvio de Abreu). Como o protagonista Dé, ele mora no morro (até hoje), perdeu um irmão para o tráfico, o outro foi baleado, o pai os abandonou. O que torna mais convincente a mensagem, de olhar com mais atenção para os outros, que estão do seu lado e nem se nota.
E olha que nem sempre o roteiro ajudou (custa um pouco a começar, com bastante tempo de exposição, não aprofunda os personagens, em particular o da Julieta, Nina), nem o elenco é perfeito (Paulo César Grande não tem fôlego para uma grande criação dramática, mas é salutar ver, ao menos, a tentativa do pai em compreender a filha; e o ex-namorado é muito fraco). Isso é compensado pela sinceridade de Thiago e o olhar meigo de Nina (Vitória Frate), e toda a narrativa que não foge da tragédia.
Dé trabalha numa barraca de lanches, em frente ao apartamento de Nina na Vieira Souto e, de longe, observa a moça, até um dia ter a chance de salvá-la de um ataque de moleques. Começa mentindo para ela, mas logo a verdade se descobre, mas aí os dois já estão apaixonados e dispostos a tudo. Quem tem papel mais marcante no filme é Rocco Pitanga, irmão de Camila e filho de Antonio Pitanga, que é um excelente ator, e tem um personagem com arco, ou seja, começa de um jeito e se transforma ao sair da prisão noutra coisa, até virar o chefão do morro. É um ator carismático, que o filme deveria, por justiça, transformar em astro.
Se o final parece um pouco manipulado, nem por isso esta fábula bem intencionada não deixa de nos tocar, passar sua mensagem contra a violência, o absurdo do abismo social entre as classes, e o beco sem saída que parece caminhar o conflito carioca e, por extensão, brasileiro.
Utilizando sambas e funk e a impecável paisagem carioca, Breno é um diretor muito hábil e talentoso. Tomara que este seu Era Uma Vez... encontre o público que merece.
Por
Rubens Ewald Filho