O MUNDO DEPOIS DA PALAVRA
 

 

04 de julho de 2008

Wall.E (Wall.E; 2008), animação cinematográfica dirigida por Andrew Stanton, o mesmo do super-estimado Procurando Nemo (2003), é um espetáculo que poderá ser melhor desfrutado pelas gerações que vieram depois das gerações da palavra. As gerações da imagem, as que “lêem” vendo filmes ou, estendendo mais, vendo imagens onde quer que elas estejam. Penso numa brincadeira do crítico norte-americano Richard Corliss em Lolita (1994), um ensaio sobre o filme de Stanley Kubrick: “Talvez, em 2063, ninguém leia. Os filmes, ou seus descendentes tecnológicos, serão a única literatura. E os romances de Nabokov serão notas de rodapé nas filmografias de Kubrick, Richardson, Skolinowski, Fassbinder.” Toda a primeira parte de Wall.E se desdobra na ausência da palavra: o robozinho que protagoniza o filme de Stanton cruza um cenário futurista destruído, e todas as emoções e sensações desta personagem minúscula são demonstradas por seus gestos e pelas imagens em torno, inclusive sua terna aproximação sentimental a um robô-fêmea chamado Eve, com coraçõezinhos e sinais luminosos; a palavra chega ao filme quando a narrativa chega à nave de refugiados da destruição terrestre, mas ainda aí é a suntuosidade visual que importa. Wall.E, todavia, não é um filme que busca imbecilizar o espectador pelo tormento da imagem anestesiante; adota uma visão crítica em sua proliferação de visões (as telas, como uma televisão do futuro, são imagem ao lado da imagem, assim como a enxurrada de outdoors publicitários revela o quanto os excessos de imagens no mundo de hoje adormecem o raciocínio do homem moderno). Wall.E está embutido no comércio de imagens, mas busca parâmetros reflexivos dentro deste quadro; pode ser que a maioria dos espectadores embarque somente nas facilidades do espetáculo, porém isto não desmerece a inteligência que sobressai deste belo desenho animado.

Wall.E está calcado em alguns clássicos do cinema de ficção científica: 2001, uma odisséia no espaço (1968), de Stanley Kubrick; Contatos imediatos do terceiro grau (1977), de Steven Spielberg; e Blade Runner, o caçador de andróides (1981), de Ridley Scott. Mas neste decalque histórico não há subserviência em Wall.E. Um pouco da atmosfera embalada de Wall.E vem da inspiração dos musicais americanos; um destes musicais marca um certo ritmo narrativo ao aparecer em telonas ao longo do filme: Alô, Dolly (1968), de Gene Kelly. Wall.E veicula uma espécie de bom sentimento ecológico, meio óbvio, é verdade, e longe da visão ecológica mais tortuosa, secreta e ameaçadora de um filme como Fim dos tempos (2008), de M. Night Shyamalan. Wall.E é bem mais agradável de ver, é claro, no bom e no mau sentido.

Por Eron Fagundes

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