LENDAS DO INTERIOR
 

 

1 de agosto de 2008

A estrutura de Pequenas histórias (2007), filme dirigido por Helvécio Ratton, é trivialmente literária: uma narradora interpretada por Marieta Severo vai dando início diante do espectador quatro histórias que lidam com o imaginário interiorano do país, enquanto vai construindo os pontos de um bordado, ou seja, conta um conto e aumenta um ponto. Ratton se reveste de sensibilidade e senso visual suficientes para impedir que estas pequenas e ingênuas histórias já tantas vezes vistas transforme sua narrativa em algo estático e morto; e Marieta tem a desenvoltura duma grande atriz para driblar os artifícios do processo estilístico em cena e comunicar-se bem com o espectador, ao menos aquele espectador que ainda não está viciado nos efeitos fáceis do grande espetáculo de filmar.

Depois dos aspectos cortantemente políticos de Batismo de sangue (2006), talvez seu melhor filme, Ratton se volta para as pequenas sensibilidades, aquela mesma que lhe rendeu o bonito e dolente Amor & Cia (1998), extraído da ficção do português Eça de Queiroz transplantado para o universo de cantigas interioranas brasileiras. Pequenas histórias é um retorno ao cantar interiorano nacional; seu singelo naturalismo visual pode evocar um clássico nacional, Humberto Mauro, mas o enfoque adotado por Ratton se assemelha mais àquela poesia de filmar dos italianos Paolo e Vittorio Taviani em trabalhos como Kaos (1984) e Noites com sol (1990); ajudado pela fotografia notavelmente plástica de Antonio Luiz, um veterano iluminador de nosso cinema, Ratton rastreia uma espécie de cantos em versos visuais que captam o sentido de interior de seus cenários.

São quatro as histórias começadas pela voz de Marieta e tornadas imagens pela perícia de Ratton. Um pescador vem a casar com Iara, a mulher d’água convertida em inesperada dona de casa. Um garotinho ajuda na missa como coroinha e depara com o dia (a última sexta-feira do mês) da procissão das almas. Um Papai Noel falido e despejado organiza uma ceia de mendigos. Um caipira, Zé do Burro, passa por poucas e boas com sua burrice, inclusive transformar uma tragédia para a qual foi contratado como ator em involuntária e bem-sucedida comédia. Figuras como Patrícia Pillar, Paulo José e Gero Camilo (este, um notável Zé do Burro, mais nordestino impossível, desbancando os clássicos desempenhos de José Dumont) valorizam sobremaneira esta realização de Ratton.

Por Eron Fagundes

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