18 de julho de 2008
Kung Fu Panda (2008), animação cinematográfica dirigida por Mark Osborne e John Stevenson, é extremamente belo na maneira como harmoniza os elementos fílmicos de que dispõe para passar seu recado. Poucas vezes um desenho animado usou o humor com tanta inteligência e sensibilidade; geralmente os filmes animados e os filmes de lutas (que é onde está a confluência de Kung Fu Panda) forçam a barra duma comicidade trivial e pancada para atingir o espectador menos exigente, localizado especialmente nos mais jovens e desinteressados do cinema como arte que pensa; aqui as coisas são subvertidas e reflexionar está incrustado na ironia, toda construída de frases espertas e ferinas.
No início do filme, o protagonista, o urso panda Po, é um serviçal de seu pai num restaurante. Deste prosaísmo inicial a narrativa vai saltar, inicialmente através do sonho da personagem, para o ritmo mágico que põe o cinema nos trilhos do delírio. E é com um vigor raro que os realizadores fazem esta transposição de universos e, misturando legados ocidentais e orientais, rodam um desenho animado que muitas vezes apaixona. Po vai parar num mundo de fábula, cercado por um sábio, um mestre e alguns discípulos, todos ameaçados por um ex-aprendiz do mestre que virou mau, e aí seu jeito gordo e atrapalhado se desenvolve no aprendizado com estes seres, até a terrível luta final contra o perverso.
É bem verdade que a mensagem básica é ingênua e precária e os arquétipos de contos de fadas são bastante estereotipados, enfeixando-se no conciliador processo que vai concluir o filme; mas os cineastas driblam com perfeição este problema de conteúdo pela audácia de suas soluções cinematográficas, que nunca desdenham da constante criatividade plástica. Mas não é uma plasticidade de superfície, boniteza sem seiva: é uma constante injeção formal que penetra na carne do observador mais sensível.
Entre as vozes que acompanham as personagens, há a de Angelina Jolie como a Tigresa, a de Jackie Chan como o Macaco, a de Jack Black como Panda; nos créditos é possível ver vários nomes orientais que permitem esta produção sincrética. E não deixes de acompanhar o filme durante toda a apresentação dos créditos finais: enquanto estes créditos desfilam na tela, uma panorâmica percorre murais orientais belíssimos, até o momento em que num plano vemos Po e um ursinho comendo e no plano derradeiro uma planta fecha o conjunto de imagens. Kung Fu Panda é um filme para cativar as crianças, mas nunca deixa de estar centrado na perspectiva do cinema como arte.
Por
Eron Fagundes