O OLHAR PERDIDO DE SHYAMALAN
 

 

20 de junho de 2008

O indiano M. Nicht Shyamalan, descoberto por Hollywood como cineasta a partir de O sexto sentido (1999), onde muitos viram um arrepio cinematográfico digno de Alfred Hitchcock, outro estrangeiro que fez fama no cinema americano, volta à cena da polêmica com seu novo filme, Fim dos tempos (The happening; 2008). Shyamalan utiliza bastante referências da história do cinema para criar suas estranhezas cinematográficas, atmosferas visuais que, independentemente de se aprovar ou não, perturbam nossa cômoda situação de se estar sentado passivamente numa poltrona.

A primeira alusão fílmica de Fim dos tempos é o clássico Vampiro de almas (1956), de Donald Siegel; se Siegel metaforizava com a voracidade das plantas a época da guerra fria, Shyamalan também embute a agressividade das árvores para testemunhar seu pessimismo diante da civilização americana atual à luz dos sentimentos que vieram depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Para o oriental Shyamalan, parece que o terror americano não é externo: vem de dentro da alma americana (Alma é o nome da principal personagem feminina do filme). Depois, a senhora Jones, que aloja num desértico lugarejo os três “náufragos” do horror espalhado pelo país (o casal Elliot e Alma e a sobrinha Joss), parece, como diz um trecho do diálogo (é Alma quem diz a Elliot), extraída das imagens de O exorcista (1973), de William Friedkin. E certos gritos angustiantes da imagem são seguramente nascidos de Hitchcock: mas Hitch é sempre mais transparente e agudo e adulto que o um pouco infantil e primário Shyamalan. Mas o curioso é que, mesmo se valendo das muletas estilísticas e temáticas fornecidas por outros realizadores, Shyamalan, enfim e ao cabo, tem seu próprio estilo de filmar, seus filmes têm identidade própria; Shyamalan não está recheado de plágios, como ocorre freqüentemente com as narrativas do norte-americano Brian de Palma; mas, no frigir dos ovos, o universo cinematográfico de Shyamalan é tão inconsistente quanto De Palma e não resistiria a uma análise mais isenta e madura.

Só mesmo em A vila (2004) talvez Shyamalan tenha logrado vencer suas limitações de diretor de cinema. Que sobra mesmo nas armaduras cinematográficas do realizador? Aqui e ali certos suspiros da imagem provocam arrepios de clima: seria um universo fechado e perturbador, como aquele do norte-americano David Lynch. Mas Lynch é certamente bem mais inventivo e experimentador que Shyamalan, os arrepios de Shyamalan  são rápidos e vão embora logo, enquanto os de Lynch permanecem muito tempo dentro do espectador.

Fim dos tempos, para resumir, talvez seja o retrato do olhar perdido que o oriental Shyamalan volta para uma sociedade americana que ele vê como suicida: os suicídios coletivos começam no Central Park, mas logo se espalham pelo país; no fim do filme, quando se pensa que a calmaria resolveu tudo, a seqüência final mostra que o mal voltou, mas em Paris; confundidos inicialmente com uma ação terrorista (ecos do 11 de setembro de 2001), a questão das pessoas que se matam de maneiras diversas aparece vagamente como efeito duma toxina emitida pelas plantas contra grupos humanos numerosos (revolta da natureza contra a poluição feita pelo homem). Fim dos tempos carrega excessivamente na simbologia e, sem a habilidade dos grandes realizadores, Shyamalan se perde muito em seu novo olhar americano.

Por Eron Fagundes

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