18 de julho de 2008
Boa parte da narrativa de O escafandro e a borboleta (The diving and the butterfly; 2007), dirigido na França pelo pintor e cineasta norte-americano Julian Schnabel, utiliza de maneira extremada, à beira do experimental, o recurso da câmara subjetiva; este expediente estilístico visa a pôr o espectador diretamente em contato com a problemática mente do protagonista do filme, o editor de famosa revista que subitamente em face de acidente cardiovascular cerebral entrou em coma e ao retornar está num hospital, manietado, sem voz, sem mexer-se absolutamente, porém com o cérebro a mil. Schnabel exacerba naquelas imagens que se focam e desfocam, visões embaçadas do mundo, planos inclinados ou mesmo tortos, tudo para captar cinematograficamente como sua personagem estaria vendo as coisas; para tanto o diretor se vale de seu senso de um cinema libertino, desamarrado, como aquele que fizera em Basquiat (1996), que tratava de Jean-Michel Basquiat, pintor marginal americano dos anos 70 e 80 embutido no movimento de arte underground liderado por Andy Warhol. Em todo o longo início do filme (a personagem desperta de seu coma num quarto de hospital) Schnabel vai-se fixando (e fixa o olho do espectador) na tensa e inquieta câmara subjetiva; e ao longo de toda a narrativa são poucas as vezes em que se sai dos aspectos enforcados e claustrofóbicos deste recurso formal, assim esta vertigem obscura da imagem trabalhada por Schnabel é que determina o ritmo de ver o filme em que está imerso o observador.
É um dos charmes que tornam O escafandro e a borboleta uma obra impactante, não resta dúvida. Mas a maneira como Schnabel se vale de sua câmara subjetiva, deslizando pelo olho descontrolado de quem vê o filme, vai causar também uma incômoda sensação de artificialismo que prejudica a profundidade e a fluência emocional da narrativa. Comparemos. Pensemos em Johnny vai à guerra (1971), de Dalton Trumbo, talvez a inspiração central do filme de Schnabel. Neste único filme dirigido por Trumbo há também uma personagem manietada num leito de hospital cujo cérebro ainda e tragicamente funciona a mil; como no filme de Schnabel, a personagem desfia sua atormentada mente para o espectador.
Mesmo assim, O escafandro e a borboleta não deixa de ser um filme forte e permanente em nossa memória. Apesar de optar aqui e ali por soluções emocionais de superfície, o filme logra evitar resvalar para o melodrama lacrimoso; tangencia, mas não cai no fosso. Adota, todavia, um sentimento de auto-complacência que o distancia da impiedade e do rigor do filme citado de Trumbo. O filme de Schnabel é uma aguda reflexão sobre a vida como acidente: nascemos acidentalmente no meio de bilhões de espermatozóides, nos apaixonamos por pessoas e coisas (por exemplo, uma mulher ou um filme) sem saber bem quais as razões (o esforço intelectual de explicar, este texto inclusive, é inútil), nos tiram às vezes a memória ou o raciocínio ou a locomoção por acidente e desaparecemos acidentalmente deste mundo.
O elenco exubera. Mathieu Amalric na pele de Jean-Dominique Bauby (vulgo Jean-Do) está extraordinário. E Marie-Josée Croze como a terapeuta da fala e Emmanuelle Seigner como a esposa compõem com justeza o círculo afetivo da criatura imobilizada. E, é claro, a aparição do ator bergmaniano (dos filmes do sueco Ingmar Bergman, informação aos distraídos) Max Von Sydow como o ancião pai do protagonista em duas seqüências, uma um flash-back de antes do acidente quando Jean-Do está barbeando seu pai, outra depois do acidente quando o pai de Jean-Do telefona para o hospital e tenta conversar com seu filho por meio da convenção de piscar de olhos estabelecida pelo tratamento; a utilização de Max no filme de Schnabel se assemelha ao presente dado pelo alemão-turco Fatih Akin retirando do baú a alemã Hanna Schygulla para interpretar uma dorida mãe (sua filha foi equivocadamente assassinada numa confusão de terroristas turcos) em Do outro lado (2006).
Por
Eron Fagundes