30 de junho de 2008
Eu habitualmente pasmo da condescendência da crítica para com a falta de imaginação e rigor da fantasia cinematográfica contemporânea. As crônicas de Nárnia: o príncipe de Cáspian (The chronicles of Narnia: prince Caspian; 2008), dirigido por Andrew Adamson a partir dum romance seriado de C.S. Lewis, ficcionista irlandês, publicado na década de 50. Dizem que é superior ao filme anterior, As crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa (2005), o primeiro rebento fílmico nascido da ficção de Lewis. Discordo: ambos são mediocremente tolos e, mesmo com a benevolência que se possa ter com aquilo que chamam imaginação infantil, é esquemático e maniqueísta ao extremo. Vivemos uma época em que se confunde imaginação com delírios escapistas e as pessoas dizem “vou ao cinema para me divertir”, como se o espectador que exige rigor e inteligência não se divertisse igualmente com os elementos mais elaborados permitidos pelo cinema.
O projeto cinematográfico de As crônicas de Nárnia é exclusivamente comercial e segue as pegadas de O senhor dos anéis, com os três episódios filmados em seqüência e pelo mesmo diretor, o neozelandês Peter Jackson, e dos filmes de Harry Potter, ainda em andamento e mudando de diretor a todo o momento. É algo que tem dado certo e não custa tratar bem a bilheteria. Mas o universo de Nárnia, a que chegam as personagens centrais da narrativa durante uma estada numa estação de metrô como uma viagem no tempo pretendidamente mágica, é constrangedora próximo do ridículo: a profusão de ratos guerreiros, centauros bélicos, anões sarcásticos que contracenam com os normais são antes uma fonte de nada do que produto de imaginação fértil. Seqüências buriladas de batalha e uma luta final que lembra os ingênuos tempos dos filmes de capa-e-espada são articulações modernosas na verdade anacrônicas.
É com melancolia que constato: longe se vão os anos em que imaginação e fantasia rendiam filmes como El Cid (1960), de Anthony Mann, e Excalibur (1981), do inglês John Boorman.
Por
Eron Fagundes