03 de outubro de 2006
As relações entre uma personagem e sua época são admiravelmente construídas em Café da manhã em Plutão (Breakfast on Pluto; 2005); os característicos cenários audiovisuais da década de 70 do século XX são percorridos por um indivíduo que se vincula a estes cenários como a alma de um determinado tempo histórico: o travesti Patrick (ou Patrícia) é uma aguda consciência daqueles anos agitados e transformadores; é pelo olhar e pela fulguração visual de sua personagem central que o filme dá ao espectador o contato com uma fatia da história do século XX muitas vezes visitada pelo cinema, mas poucas vezes com a densidade e a virulento sarcasmo atingido por esta realização.
Neil Jordan, o diretor irlandês que assina Café da manhã em Plutão, faz sua narrativa mais contundente e criativa. Em Traídos pelo desejo (1992) ele misturava a agitação mundana dum travesti com o terrorismo político-étnico-ético-religioso que sempre assolou sua Irlanda natal. De certa maneira ele retoma estes cruzamentos temáticos em seu novo filme. Mas sua criatividade cinematográfica agora é muitas vezes maior. A perversidade de sua ironia é narrativa. Construindo sua película um pouco como se fosse literatura, Jordan divide os blocos em capítulos, titulando-os, muitas vezes usando títulos à maneira antiga empolados e já anunciando boa parte do que vai ser contado no capítulo (“no qual acontece isto e aquilo...”); outra curiosidade armada sarcasticamente pelo narrador são os passarinhos que comentam a ação, os pios das aves são traduzidos com muito senso de humor em letreiros.
Ainda que esbanje suas multifacetadas faces de criador cinematográfico, Jordan nunca se revela um formalista estéril em Café da manhã em Plutão. Ele é notavelmente conseqüente com a visão da Irlanda dos anos 70 que apresenta em cena. Os delírios alienados de sua criatura, trágico-grotesco ser que inconseqüentemente aparece como um contraponto disforme aos atentados criminosos na Irlanda, não devem ser confundidos com o elevado cinismo crítico do realizador. Café da manhã em Plutão tem esta fuga para o fantástico que Jordan persegue desde A companhia dos lobos (1984) e surge mais decididamente em Entrevista com o vampiro (1994) e A premonição (1999); mas sua sensibilidade humana navega pelas mesmas águas de Fim de caso (1999) e Nó na garganta (1997).
Como em Nó na garganta, a personagem enviesada do padre é figura-chave em Café da manhã em Plutão. O padre pedófilo de Nó na garganta é um padre lúbrico que seduz a faxineira da igreja em Café da manhã em Plutão: este padre é o pai do protagonista. Ao longo de todo o caminho da narrativa de Jordan sua personagem está em busca da mãe, assim como ocorre com a criatura vivida por José Wilker em O maior amor do mundo (2006), o belo e menosprezado filme do brasileiro Carlos Diegues.
De maneira bastante mais densamente humana o indivíduo homossexual vai aparecer em Café da manhã em Plutão, contrastando com os retratos trazidos recentemente por filmes como Lado selvagem (2004), de Sébastien Lifshitz, e O tempo que resta (2005), de François Ozon, narrativas mais sombrias porém igualmente mais superficiais. Boa parte do trunfo da personagem nasce do extraordinariamente sensível desempenho de Cilian Murphy no papel-central, onde o ator capta com brilho todos os andamentos e as nuanças dos estados d’alma de sua criatura.
Filme profundamente belo, doloroso e amargamente irônico, Café da manhã em Plutão é um dos pontos altos do ano cinematográfico, que se tem revelado até uma temporada de cinema melhor do que as anteriores em muitos anos.
Por
Eron Fagundes