CAGANDO PARA O PAPA
 

 

04 de julho de 2008

Lá pelo final do filme O banheiro do Papa (El baño Del Papa; 2007), co-produção entre o Uruguai, o Brasil e a França dirigida por Enrique Fernández e César Charlone, o protagonista vivido por César Trancoso, desiludido de ver seus sonhos de enriquecer com o evento diante da rapidez da passagem do Papa por sua cidadezinha e da pouca expressividade internacional daquela parada do Viajante Pontífice, esbraveja irado quebrando a televisão onde um repórter dá as últimas notícias sobre aquilo que a mídia entende como significado da visita papal.

Beto, um pai de família que no lugarejo fronteiriço de Melo (fronteira entre o Uruguai e o Brasil) vive de suas viagens de bicicleta em busca de contrabando para sobreviver, estava mesmo cagando para a mensagem religiosa da chegada do Papa, assim como o Papa na verdade estava cagando para a miséria estagnada daquele povoado. O Papa estava lá e, mostra o filme, nem percebeu as expectativas de negócios que sua presença trouxe para criaturas muito pobres. Uns se preparavam com lingüiça, outros com pastéis. Beto organizou um banheiro onde os peregrinos, ao longo do dia, poderiam fazer suas necessidades, pagando o ingresso é claro. Tudo se frustra porque o Papa dá seu discurso e logo se deslocará daqueles rincões remotos, desinteressantes, esquecidos. O banheiro do Papa refaz, de maneira sutil, uma crítica à Igreja Católica como aliada da manutenção do estado de coisas social dos miseráveis do Terceiro Mundo.

O banheiro do Papa é um filme tão simples em termos formais e temáticos quanto eram as obras do neo-realismo italiano. O que falta aos realizadores desta produção uruguaia é uma certa capacidade de transcendência que seus mestres Roberto Rossellini e Vittorio De Sica detinham em seus filmes. Não chega a ser o grande filme uruguaio da década, como querem fazer os noticiários que chegam por aqui. É bem verdade que as produções uruguaias não tem tido distribuição nos cinemas brasileiros, o que pode tornar minha afirmação da frase anterior algo como um chute. Mas há alguns anos assomou por aqui a realização uruguaia Coração de fogo (2002), de Diego Arsuaga, que tinha muito mais seiva que o apenas correto e sentimental O banheiro do Papa.

Por Eron Fagundes

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