UM AGENTE BEM TRAPALHÃO
 

 

30 de junho de 2008

Recebido com louvores curiosamente exagerados por alguns analistas, Agente 86 (Get smart; 2008) retoma um atrapalhado agente secreto americano criado por Mel Brooks e Buck Henry para a televisão na década de 60; aliás, a mão escrachada de Mel Brooks, comediógrafo americano que em seus melhores anos como diretor de cinema se divertia parodiando os gêneros, se torna perceptível em várias tiradas e cenas desta realização do artesão obediente e rígido que é Peter Segal. Na verdade, surpreende que digam que Agente 86 tenha qualquer coisa de novo ou do frescor duma visita autêntica a um universo antigo. As espionagens da Guerra Fria, envolvendo armas nucleares, Estados Unidos e União Soviética, soam bastante anacrônicas; o que não impede que o público possa rir (por graça ou desleixo) das caricaturas cênicas.

E Agente 86 nunca foge a seu plágio descarado. Como se pode fechar os olhos a esta realidade crítica da realização? Insensibilidade? Desmemória? A falta de originalidade e naturalidade já nasce na interpretação central da narrativa: Steve Carell imita desastradamente o jeito interpretativo de Peter Sellers, tanto como o Inspetor Clouseau e mais ainda refaz muita coisa do que genialmente Sellers compôs em Um convidado bem trapalhão (1968), de Blake Edwards. E há também a recorrência a Alfred Hitchcock e suas duas versões de O homem que sabia demais (1934-1956): bem antes de surgir a pista dada pelo roteiro ao situar o atentado final num concerto ligando a explosão da bomba às explosivas notas finais duma partitura (em Hitch uma nota duma cantata avisa o atirador que é chegado o momento de disparar), já se notam alguns sinais estruturais de que Agente 86 mama no leite da vaca cinematográfica de Hitchcock.

Enfim, um pastiche enganador apresentado como novidade. E a obviedade de sua trama é tanta que se espalha pela repetitividade de seus  acordes musicais, calcados no velho seriado de origem. Se Carell nada traz de novo para a comédia fílmica americana, sua parceira em cena, Anne Hathaway, é somente mais um dos tantos e inexpressivos rostos femininos, bonitos todavia, que Hollywood despeja habitualmente pelos quintais cinematográficos do mundo.

Por Eron Fagundes

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